É possível engravidar tomando anticoncepcional?




Sim. É tão possível que estou aqui, com um filho, escrevendo neste blog para vocês (risos). Pra qualquer método anticoncepcional, a utilização de forma correta diminui as chances de falha. Vou tentar explicar um pouco sobre como funciona cada um dos métodos hormonais mais conhecidos e qual a chance de cada um deles dar errado. Não tenho a intenção de explicar a fisiologia do ciclo menstrual ou de me aprofundar na ação anticoncepcional. Se você quiser uma informação mais detalhada, ou se quiser ler mais sobre outros tipos de contracepção, indico esse material aqui.

1) Anticoncepcional Oral Combinado
O anticoncepcional oral combinado (AOC) é a famosa pílula,e leva esse nome pois combina estrógeno e progestágeno,  hormônios similares aos naturalmente envolvidos no ciclo menstrual da mulher.
Os anticoncepcionais orais inibem a secreção de gonadotrofinas, e sem a liberação delas não há ovulação. O estrógeno age também evitando sangramentos de escape e potencializando a ação do prostágeno; esse último age, basicamente, impedindo o transporte do óvulo e tornando o útero um ambiente hostil para os espermatozóides.
A eficácia de qualquer método geralmente é dada pelo Índice de Pearl, que corresponde ao número de gestações a cada 100 mulheres ao ano, em uso de um anticoncepcional. O índice de Pearl dos anticoncepcionais orais combinados varia entre 0,2 a 3/100 mulheres/ano; ou seja, possui taxa de falha de 0,2 a 3%. Das gestações que ocorrem durante o uso, muito poucas podem ser atribuídas à falha do método. Na maioria dos casos, a concepção ocorreu por irregularidade na tomada - atraso em mais de 12 horas, sexo sem proteção nos 7 primeiros dias do uso, ou má absorção do fármaco (por vômitos, diarreia, gastrenterite,  doença de Crohn, e uso de medicamentos que reduzem a concentração plasmática dos anticoncepcionais orais).

Medicamentos que diminuem a concentração dos anticoncepcionais na corrente sanguínea:
Rifampicina (antibiótico)
Nelfinavir, lopinavir, ritonavir (antirretrovirais)
Nevirapina (antifúngico)
Barbitúricos (anticonvulsivante)
Carbamazepina e oxcarbamazepina (anticonvulsivante)
Felbamato (anticonvulsivante)
Fenitoína (anticonvulsivante)
Topiramato (anticonvulsivante)
Vigabatrin (anticonvulsivante)
Zonisamide (anticonvulsivante)

2) Anticoncepcional Combinado Injetável
Combinação de estrógeno e prostágeno, só que na versão "injeção", está disponível em uma versão mensal (1 injeção por mês) e em uma versão trimestral (1 injeção a cada três meses). É indicado para quem não quer ou não pode fazer o uso diário dos comprimidos, ou  para quem possui doenças intestinais que alterem a absorção da pílula. O mecanismo de ação é o mesmo da pílula.
Taxa de falha: 0,2%, para uso perfeito  - mais eficaz do que o anticoncepcional oral. Havendo erro na data de aplicação da injeção, a taxa de falha pode chegar a 3%. Por ter mais efeitos colaterais (principalmente na sua versão trimestral), acaba sendo menos utilizado que os anticoncepcionais orais, mesmo sendo mais eficaz.

3) Anticoncepcional Oral (prostágeno)
Também chamado de minipílula, é ideal para mulheres que amamentam, que não podem ou não querem fazer uso de estrogênio.
Como age? Sua ação envolve inibição da implantação do embrião no endométrio. As concentrações de progestágenos encontradas em minipílulas não são suficientes para bloquear a ovulação.
Taxa de falha: de 3 a 5%. Se a mulher estiver amamentando, a taxa de falha é menor que 1%.  A minipílula deve ser tomada religiosamente, todos os dias e na mesma hora. Por não ter a ação potencializadora do estrógeno, é muito mais sensível a alterações na posologia: 27 horas após a tomada a pílula, já perde sua eficiência, o que quer dizer que um atraso de 3 horas na ingestão do comprimido pode fazer a mulher engravidar. Mulheres que fazem uso de indutores de enzimas hepáticas (oxcarbazepina, rifabutina, erva de São João) enquanto tomam a minipílula devem usar camisinha ou outro método de barreira.

4)Anticoncepção de emergência
Conhecida como pílula do dia seguinte, seu uso é recomendado para relações sexuais consensuais não programadas, estupro, ou quando há evidência de falha em outro método contraceptivo (esquecimento de pílula por mais de 48h, camisinha rompida, etc).
Existem dois tipos de pílula do dia seguinte. O primeiro tipo possui doses elevadas de estrógeno e prostágeno, o chamado método de Yuzpe; são duas pílulas, tomadas em duas doses com 12 horas de diferença, sendo que a primeira deve ser tomada em até 72 horas após a relação sexual.  O segundo tipo é a pílula de levonorgestrel, um tipo de prostágeno, que pode ser tomado em dose única ou em duas doses, sem exceder 72 horas após a relação.  Sua ação é de impedir a junção do óvulo com o espermatozóide (fecundação); não existe evidência de que a pílula tenha ação após a formação do zigoto, portanto a pílula do dia seguinte não é abortiva.
A taxa média de falha do método de Yuzpe  é de 1,8%, contra 1,1% do levonorgestrel, se forem ingeridos em até 72 horas após o ato sexual. Depois desse período, as taxas de falha são ainda maiores. Ou seja, quanto mais rápida a pílula for tomada, maiores as chances de ela prevenir uma gravidez.

6)DIU Mirena
Considerado, por mim, o melhor método de todos, é um sistema intrauterino que libera hormônio (levonorgestrel) em doses baixas ao decorrer de cinco anos. O DIU de progesterona (Mirena é o nome da empresa) age impedindo a proliferação do endométrio, reduzindo a produção de muco e dificultando a penetração do espermatozóide, impedindo a gravidez. Por ter uma dose baixa de hormônio liberada, durante seu uso, a maioria das mulheres (85%) continua ovulando normalmente.
A eficácia do DIU é comparável à histerectomia (procedimento cirúrgico de retirada do útero), e sua taxa de falha é de 0,1%. Ou seja, a cada mil mulheres que utilizam o DIU Mirena por um ano, apenas uma terá chance de engravidar.

Para fim de conversa, as chances reais de se engravidar fazendo o uso correto de cada método são bem baixas, portanto o primordial é ter atenção e responsabilidade. Conhecer os métodos é muito importante, e a ida à/ao ginecologista é imprescindível pra que ela/ele te oriente sobre os riscos e vantagens de cada opção, e se há alguma contraindicação para o seu caso. Se, com toda a orientação e proteção, você engravidar, em breve terá uma postagem sobre produtos de enxoval e quartinho de bebê. Até a próxima 😊


REFERÊNCIAS (a última com link para você acessar o arquivo através do PasseiDireto):
Rotinas em Ginecologia; Freitas, Menke, Rivoire & Passos (2010)


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