Sexualização precoce e a hipocrisia desse debate
Em 2011, MC Pedrinho foi conhecido nacionalmente pela música “Dom
Dom Dom”, que explicitamente fala sobre uma mulher fazendo sexo oral nele. Na época,
MC Pedrinho tinha apenas 9 anos. A música foi regravada por diversos artistas,
e não foi alvo de polêmicas ou críticas, assim como hoje – infelizmente – a opinião
pública conservadora não debate a infinidade de meninos que fazem sucesso
cantando músicas de teor sexual explícito. Mas só meninos? É, só meninos.
Há uns anos
atrás, MC Melody ficou conhecida por considerarem sua postura imprópria pra sua
idade. O pai de Melody, Thiago Abreu, mais conhecido como MC Belinho, foi
investigado pelo Ministério Público de São Paulo sob
suspeita de "Violação ao direito ao respeito e à dignidade de
crianças/adolescentes" por conta do visual adulto usado por Melody em
vídeos onde ela cantava funk. Preciso ser mais clara?
Existe sim
uma sexualização precoce das nossas crianças, que urge em ser debatida.
Infelizmente, a opinião pública dita conservadora é bastante seletiva ao fazer
esse debate. Porque se você for um menino dito heterossexual, a “novinha” pode
fazer “um negócio bom” com você; mas se você for menina, como Melody, seu pai
leva um processo porque você tem “postura de adulto”.
A erotização
infantil não está presente apenas no meio da música. Ela faz parte de uma
cultura de adultizar as crianças, transformá-las em miniaturas de adultos que devem se enquadrar nas necessidades do coletivo. Adultizar uma criança é não
entender que a infância é uma fase de descobertas e necessidades peculiares, de
comportamento diferente do adulto e que deve ser respeitado. Vai desde querer
que a criança se comporte como um adulto em ambientes públicos a achar que ela
deve manifestar interesses sexuais, como um adulto. Na minha opinião, uma criança
não deve ser erotizada de forma alguma. Mas esse debate tem diversos recortes, como por exemplo: por
que as meninas da periferia, em sua maioria negras, tem sua sexualidade
estimulada antes de meninas de classes mais altas? Por que existe inibição da
sexualidade feminina enquanto há estímulo da sexualidade masculina? E a
pergunta que mais se encaixa no momento, por que o menino só deve ter sua
sexualidade estimulada se ela tiver tendência heterossexual?
Então, ao questionar um comportamento indevido na formação de crianças, pais e educadores devem se perguntar qual o seu papel naquele comportamento. O filósofo Giogio Agamben, em uma entrevista, fala que "nem sequer a criança é vida nua", e explica: "aquilo que chamo vida nua é uma produção específica do poder e não um dado natural". Ou seja, o comportamento da criança não é de responsabilidade da natureza, e sim consequência das relações de poder sociais, assim como é consequência da educação que recebe e das experiências que vive. E quando me refiro a relações de poder, quero dizer que a figura masculina, branca e heterossexual terá comportamento defendido ou naturalizado; e a criança que traduzir figuras femininas, negras e/ou homossexuais serão rechaçadas, como está acontecendo com o menino do vídeo, o qual nem soube o nome.
Eu, Karole, acho
errado que um menino de doze anos tenha namorado. Mas quantos de nós já
tínhamos dado o primeiro beijo na boca aos doze anos de idade? O debate não tem
que ser centrado na figura daquele menino, até porque se a questão é “proteger
as crianças”, exposição e proteção não combinam. Num país onde 70% das vítimas de abuso são
crianças e adolescentes, realmente devemos falar sobre erotização da criança.
Mas de forma completa, buscando questionar e desconstruir a cultura que adultiza
nossas crianças; e não expor uma situação em particular, sem procurar entendê-la, até
depois esquecer que o problema existe.
Em abril deste ano, a Secretaria de Assistência Social do Estado do Amazonas lançou a campanha "Criança não namora", para conscientizar pais e cuidadores a não estimular relações de namoro entre as crianças. Para além disso, pais ou não, precisamos entender nosso papel nesse processo de adultização precoce, para então desconstruir a nossa ideia de que criança deva ter comportamento de adulto, seja em qual âmbito for. E entender que aquele menino do vídeo não só poderia ser seu filho, como poderia ter sido você.




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