Porque não dou mingau nem leite artificial ao meu filho
Você sabe o que são alimentos ultraprocessados? Órgãos mundiais de saúde e alimentação dividem os alimentos em quatro categorias, de acordo com o grau de processamento: alimentos in natura (obtidos diretamente de plantas e animais, ou minimamente alterados), ingredientes naturais que sofrem processamento para servir como temperos, alimentos processados com adição de açúcar ou sal e, por fim, alimentos ultraprocessados. Os alimentos ultraprocessados são formulações industriais prontas para consumo e feitas inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (óleos, gorduras, açúcar, proteínas), derivadas de constituintes de alimentos (gorduras hidrogenadas, amido modifcado) ou sintetizadas em laboratório com base em matérias orgânicas (corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e outros aditivos usados para alterar propriedades sensoriais). É nesta categoria que se enquadram os mingaus industrializados e fórmulas infantis.
Os ingredientes principais dos alimentos ultraprocessados fazem com que, com frequência, eles sejam ricos em gorduras ou açúcares. É comum que apresentem alto teor de sódio, por conta da adição de grandes quantidades de sal, necessárias para estender a duração dos produtos e intensifcar o sabor, ou mesmo para encobrir sabores indesejáveis oriundos de aditivos ou de substâncias geradas pelas técnicas envolvidas no ultraprocessamento. Para que tenham longa duração e não se tornem rançosos precocemente, são frequentemente fabricados com gorduras que resistem à oxidação: gorduras saturadas e gorduras hidrogenadas, e também gorduras trans.
Os mingaus, Mucilon, Cremogema e afins, são compostos principalmente por farináceos, ou seja, uma carga alta de açúcares que tem por objetivo ser palatáveis e suprir as demandas energéticas do bebê. Na realidade, essa carga alta de açúcar muitas vezes supera a demanda energética da criança, e, de acordo com a OMS , sua ingestão é fator de risco para doenças crônicas como hipertensão, diabetes e obesidade no futuro.
Os leites artificiais, ou fórmulas, têm um propósito diferente: se assemelhar ao leite materno. NAN, Aptamil, dentre outros, são feitos para as raras situações em que o aleitamento materno não é indicado (infecções maternas com agentes de alta patogenicidade ou que exijam o uso de medicamentos incompatíveis com a amamentação), ou para mães que não fizeram a amamentação.É sabido que o leite materno deve ser a primeira escolha para a alimentação de crianças recém-nascidas. As fórmulas infantis mais utilizadas no mercado têm como matéria-prima básica o leite de vaca, que não é apropriado para a alimentação do recém-nascido, necessitando de uma série de adaptações para se tornar mais digerível e absorvível. As principais modificações feitas são: redução do teor de proteínas e eletrólitos (o rim do bebê ainda está imaturo), substituição de parte dos lipídios por óleo vegetal, adição de outros carboidratos como a maltodextrina e sacarose, e adição de vitaminas e minerais.
Na minha realidade, é ilógico dar ao meu filho leite artificial, sendo que ele é amamentado e eu nem preciso discorrer o quanto o leite materno é melhor, em nutrientes e anticorpos, do que um leite artificial. O mingau, na minha opinião, não é a fonte mais saudável de nutrientes; aqui em casa, faço mingau natural, com farinha ou farelo de aveia, meu próprio leite e uma fruta para adoçar (geralmente a banana). Meu Bernardo tem, exatamente, 1 ano e 9 dias, foi amamentado
exclusivamente por cinco meses e nunca ingeriu leite artificial ou mingau
processado (Mucilon e afins). Fui e sou bastante questionada por essa decisão,
acredito que principalmente por meu bebê ser magro- existe a cobrança de que nossos bebes sejam gordinhos, e nem todos são assim. Sua curva de peso está adequada, ou seja, dentro dos scores normais e tem crescimento
paralelo à curva média desde que nasceu. Abaixo listo alguns questionamentos que me foram/são feitos e minha resposta a eles.
1) "Como você vai fazer o desmame sem dar leite artificial ao seu filho?"
O leite artificial não é obrigatório ao desmame. O desmame é um processo natural do crescimento, e isso é tão óbvio - você não vê nenhum adulto mamando no peito da mãe. A idade com que esse desmame é feito deve ser uma decisão da mãe, e feita de forma respeitosa à criança. Se você faz desmame antes do período de amamentação exclusiva, aí sim, o recomendado é que você use uma fórmula infantil para a criança. Se o desmame é feito após esse período, e a criança já consegue suprir suas necessidades nutricionais com outros alimentos, não existe necessidade alguma de leite artificial. Mas,com certeza, a Nestle discorda de mim.
2) "Mas o seu filho acorda de noite com fome! Se você der um mingau ele não dorme a noite toda?"
Existe essa crença de que crianças tem o sono interrompido por conta da fome, do "leite materno que é fraco" e por aí vai. Deixa eu explicar uma coisa: o ciclo de sono de uma criança é totalmente diferente de um adulto. Os recém-nascidos tem um padrão de sono chamado polifásico, que alternam sono e vigília, e até os dois anos é natural que o sono noturno não esteja consolidado. Nos momentos em que o sono fica mais superficial, o bebê acorda em busca do estímulo que o levou a dormir: o peito, o cheiro da mãe/pai, um paninho, a sucção da chupeta, e por aí vai. Já aconteceu comigo, inúmeras vezes, de o meu filho dormir após o jantar e acordar menos de duas horas querendo mamar. Não é por fome, é pelo hábito. Em alguns casos, o desmame noturno pode ajudar.
3) "Mas seu filho é magro! Se você desse um mingau a ele, ele ia engordar!"
Quem te disse que meu filho tem que ser gordo? Toda criança tem seu próprio padrão de crescimento e ganho de peso, o qual todo pai pode e deve acompanhar pela caderneta da criança. Na imagem ao lado, você pode ver o gráfico. Se o peso, marcado em determinada idade, estiver entre as duas linhas vermelhas, está normal. A linha verde representa a média, ou seja, o seu filho pode estar abaixo ou acima dela e estar com o peso adequado. O ideal é que a linha do ganho de peso seja paralela à linha verde, ou seja, todos os pontos devem ter a mesma distância da linha verde - isso mostra que o seu filho está ganhando peso de forma adequada para o padrão dele. Dessa forma, o padrão de ganho do meu filho sempre foi normal, mesmo ele sendo um bebê magro. Ele não precisa engordar para estar saudável, e nem tem que se adequar ao padrão que os outros pensam ser saudável.
4)" Todas as crianças que conheço tomaram mingau,e todas estão aí, crescidas e saudáveis."
Essa é a pior coisa que alguém pode dizer pra uma mãe. Eu conheço pessoas que ingeriram veneno, estão fortes e saudáveis e nem por isso vamos todos seguir esse comportamento... o fato de uma, dez, mil pessoas terem sido alimentadas de uma forma não significa que essa alimentação não deve ser questionada ou adaptada para outras pessoas. Existe comprovação científica de que esses alimentos ultraprocessados, incluindo mingau e fórmulas infantis, estão associados a maior risco de doenças cardiovasculares e também doenças renais. Eu, pessoalmente, penso que em hipótese alguma um alimento industrializado vai ser melhor do que um alimento natural ou comida feita com produtos naturais. Essa é a opção que escolhi para o meu filho.
5) "Então você acha que nenhuma mãe deveria dar leite artificial ou mingau?"
De forma alguma. Eu acho que toda mãe deveria estar perfeitamente informada sobre a alimentação do seu filho, mas a forma como essa alimentação é conduzida é decisão única e exclusiva dos pais. Cada um sabe da sua realidade, e eu respeito às mães que oferecem outros leites ou engrossantes aos bebês, independente do motivo dessa escolha. Da mesma forma, quero respeito à minha decisão de não dar! Abaixo seguem dois guias e um artigo muito interessante sobre as diversas formas de processamento de alimentos e diferentes tipos de fórmula infantil.
Referências:
Ultra-processed food and drink products
in Latin America: Trends, impact on obesity,
policy implications. OMS, 2015
Guia Alimentar para a população brasileira. MS, 2014




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