Crianças blogueiras e pais espectadores: a era da influência digital
Na era das redes sociais, o que importa é ver e ser visto. Compartilhamentos, curtidas, um boom de informações em velocidade estonteante: o meio virtual acaba sendo a nossa principal forma de se relacionar. Isso pode ser benéfico ou não, a depender da forma como guiamos o processo. Um número considerável (porém ainda não mensurado) de crianças tem tido suas vidas sequencialmente registradas em redes sociais, especialmente filhos de famosos brasileiros. São os mini digital influencers, ou blogueiros mirins, que posam e brincam sob o olhar atento das câmeras dos pais. Em entrevista para O Globo, no início de 2018, o pediatra e pesquisador Daniel Becker alertou para o perigo dessa exposição massiva em redes sociais:
Essas crianças, em sua maioria, participam de diversos eventos, recebem "mimos" em troca de publicidade e também interagem com outros mini digital influencers. As contas de Instagram geralmente indicam na bio que são monitoradas ou controladas pelos pais, ou seja, os adultos estão falando (e talvez vivendo) em lugar de seus filhos. Esse processo de guiar a vida virtual e social da criança não tem data de validade, e naturalmente dependerá da dinâmica de cada família. Pessoalmente, não acho que seja saudável um adulto se passar por uma criança e refletir naquele ser humano seus anseios talvez reprimidos. Por outro lado, se existe uma coisa que aprendi com a maternidade, é que os pais devem ter a liberdade de criar os seus filhos como acham melhor, e não me cabe julgar realidades que eu não conheço.
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| O termo "sharenting" é um misto de compartilhar e "parentar". |
Todo julgamento direcionado ao outro é muito mais útil quando se transforma em autocrítica, certo? Eu não concordo com o estilo de vida de uma criança blogueira, ponto, mas de que forma eu exponho a vida do meu filho? Será que daqui a uns anos Bernardo vai gostar de ver as coisas que eu posto sobre ele? Será que eu perco algum momento com o meu filho só por tentar "guardá-lo" em uma mídia virtual?
Vejo as redes sociais como um reflexo selecionado do que a gente vive - moldamos ou fabricamos momentos que desejamos mostrar. Todo mundo sabe que isso pode ser saudável ou doentio, porém quando se tem um filho - e esse filho é exposto também - esse problema pode tomar uma dimensão muito maior. O artigo de 2014 intitulado Mindfulness and the Social Media explicita os malefícios do uso exacerbado das redes, que podem se refletir em distúrbios disfóricos ("depressão do Facebook"), baixa auto estima (juntamente à necessidade de aprovação do outro) e escapismo (o espaço virtual vira fuga dos problemas reais). Se, para uma população adulta, a vida virtual intensa pode trazer tantos perigos, imagine isso sendo processado por um ser vulnerável como uma criança, em formação da sua personalidade.
Outro ponto importante é de que nós, pais, no afã de registrar o máximo possível da infância dos nossos filhos, muitas vezes deixamos de viver determinados momentos com eles. Uma ida ao parque que rende 10 ou mais fotos poderia ser muito mais bem aproveitada se a foto não for o motivo principal do passeio. O simples ato de brincar com a criança fortalece o vínculo afetivo, além de ser uma oportunidade de aprender e relaxar. O celular também pode ser uma fonte de diversão: aplicativos de jogos, filtros divertidos, músicas, sem a necessidade de que o momento seja registrado. E, vamos ser sinceros, quantos desses "registros" a gente realmente para pra admirar depois?
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| O filho de Karina Bacchi possui mais de um milhão de seguidores em "sua" conta no Instagram. |
Eu poderia me resumir a dizer o óbvio: não existe necessidade de mostrar os filhos em redes sociais. Mas a partir do momento que nos dispomos a ter uma conta em Instagram ou Facebook, é natural que a gente deseje compartilhar o que diz respeito a nós, e o que mais uma mãe ou pai pode querer mostrar do que o seu filho? Para conter os exageros, me faço três questionamentos antes de postar algum registro de/com Bernardo. O primeiro: divulgar essas informações pode comprometer a segurança dele? O segundo: a diversão dele precisa ser interrompida para que eu tire essa foto? E a última: essa imagem é desrespeitosa? Por fim, acho importante sempre relembrar que as fotos em rede social devem ser o fim, e nunca o propósito dos momentos de meu filho. Como disse a jornalista Pollyana Ferrari, doutora em Comunicação, em entrevista à Folha: "A infância é o momento em que a criança tem que estar brincando".






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